terça-feira, 6 de janeiro de 2009
OLIVEIRA SILVEIRA(1941-2009): POETA DA CONSCIÊNCIA NEGRA
Integrante de maior projeção do extinto Grupo Palmares, foi porta-voz da nascente data política para o Brasil, que fazia uma releitura histórica através da adoção de Zumbi dos Palmares como herói nacional. Estava em jogo a desconstrução do mito da liberdade concedida, substituído pela combatividade negra durante todo o período de escravização e pela denúncia da ação do racismo, do preconceito e da discriminação racial no Brasil.O Grupo Palmares, fundado em 20 de julho de 1971, realizou uma série de atividades públicas - durante o regime militar - para evocação de ícones negros como Luiz Gama e José do Patrocínio. A reverência a Zumbi dos Palmares, ato de maior relevância daquele ano, ocorrera no Clube Náutico Marcílio Dias, em Porto Alegre, frequentado por negros. Em 1978, o 20 de Novembro foi elevado a Dia da Consciência Negra a partir da fundação do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial (MNUCDR).
ATUAÇÃO CONTRA O RACISMO
Oliveira Silveira teve constante atuação no Movimento Negro através da militância política e da produção literária negra. Fundou o grupo Semba, a Associação Negra de Cultura e integrou o corpo editorial da revista Tição (publicação do Movimento Negro gaúcho no final dos anos (1970). Com presença marcante, participou da produção cultural gaúcha, compôs rodas de intelectuais e formadores de opinião. Fora homenageado em diversos eventos, entre eles a Feira do Livro de Porto Alegre.Escreveu uma dezena de livros (Poema sobre Palmares, Banzo Saudade Negra, Pêlo Escuro, Roteiro dos Tantãs, entre outros), e inúmeros poemas acerca da vida dos negros no Rio Grande do Sul e sobre a questão negra de forma geral. Uniu-se a ativistas culturais e políticos através de sua obra poética, como Pedro Homero, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina, Cadernos Negros. Sua produção correu o mundo, com coletânea de autores negros publicada na Alemanha e poesias registradas em revistas de universidades dos Estados Unidos (Virgínia e Califórnia).Foi conselheiro de notório saber em relações étnico-raciais do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir), no período 2004-2008. Atualmente, colaborava com a Secretaria por meio de consultoria acerca da preservação dos clubes negros como patrimônio material e imaterial afro-brasileiro. Dedicava-se, também, ao informativo eletrônico Negraldeia (http://www.negraldeia.blogspot.com/) juntamente com Evandoir dos Santos.Frequentador assíduo dos clubes negros gaúchos, como a Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora e a Associação Satélite Prontidão, Oliveira Silveira foi o idealizador e articulador do 1º Encontro Nacional de Clubes Negros, em 2006. Mapeou mais de 70 entidades desse seguimento existentes no País.
SIMPLICIDADE
Era entusiasta da causa negra, como ele próprio preferia denominar. Militante negro. Lutava contra o racismo. Colaborativo, tinha perfil agregador e encantava a todas as pessoas com suas histórias de um período elementar para o Movimento Negro brasileiro. Vivia num apartamento na avenida Assis Brasil, zona Norte de Porto Alegre, repleto de livros e pilhas de revistas e jornais - referências para estudos, aprendizado e ensino de uma vida.Gostava de registrar fatos e acontecimentos, de longas conversas e de coisas simples, como os passeios com o neto Tales ou pelo Centro de Porto Alegre, com paradas estratégicas no Mercado Público, na Esquina Democrática, na Rua da Praia e no Centro de Cultura Mário Quintana, onde era encontrado por quem quisesse desfrutar de sua agradável companhia. Um homem negro especial que, como bem disse uma militante negra gaúcha, virou estrela.
MAIS SOBRE
OLIVEIRA SILVEIRA, por ele mesmo
Trechos de entrevista concedida a Jader Nicolau, do Portal Afro20 DE NOVEMBRO"O 20 de novembro começou a ser delineado em encontros informais na Rua dos Andradas, aqui em Porto Alegre. Estávamos em 1971. Reuníamo-nos e falávamos muito a respeito do 13 de maio, do fato desta data não ter um significado maior para a comunidade. A partir desta constatação comecei a procurar outras datas que fossem mais significativas para o movimento. Comecei a estudar a fundo a história do negro e constatei que a passagem mais marcante era o Quilombo dos Palmares. Como não haviam datas do início do quilombo, tampouco do nascimento de seus líderes, optei pelo 20 de novembro. Colhi esta informação numa publicação da Editora Abril dedicada a Zumbi, que dava esta data como a de seu assassinato, em 1665. Por ser uma revista, não se apresentava como fonte segura. Resolvi pesquisar um pouco mais, como forma de garantia. mais adiante, no livro "Quilombo dos Palmares", de Edson Carneiro, a data se repetia. Considerei esta fonte segura, pela importância do autor. Além disto, tive acesso a um livro português que transcrevia cartas da época, numa delas era relatada a morte de zumbi, em 20 de novembro de 1665. A partir de então colocamos em ação nossas propostas. Batizamos o grupo de Palmares e registramos seu estatuto, em julho. No dia 20 de novembro do mesmo ano (1971), evocamos pela primeira vez o "Dia Nacional da Consciência Negra", na sede do Clube Marcílio Dias."Há pessoas que imaginam que o Grupo Palmares tenha chegado ao 20 de Novembro através da obra de Décio Freitas, historiador branco que escreveu "Palmares, A Guerra dos Escravos", livro que teve o mérito de pesquisar mais a fundo a vida de Zumbi. O fato é que quando decidimos pela data, não conhecíamos nem Décio Freitas nem sua obra, ele a havia editado no Uruguai, durante o exílio, em agosto de 1971. A decisão de nosso grupo, portanto, é anterior a publicação de seu livro.
"O GOSTO PELAS LETRAS"
A literatura surgiu em minha vida na época em que ainda morava em Rosário. Minha infância foi marcada pela poesia popular, quadrinhas e versos de polca entoados durante os bailes campeiros. Ritmos típicos do meio rural gaúcho. É um momento especial, onde as mulheres tiram os homens para dançar e aí se cantam versos, o par diz uma quadrinha um para o outro, começando pelo rapaz e respondida pela moça. Também me lembro dos "causos" contados pelos mais velhos na cozinha, ao redor do fogareiro. Essas narrativas são um substrato da minha literatura."Mais adiante tive contato com livros e comecei a escrever. Em 1958 publiquei meu primeiro poema, num jornal de Rosário. Isto foi muito importante para o início de minha carreira. A partir dos estímulos recebidos de amigos continuei a escrever poemas regionalistas, que marcam até hoje meu estilo. Não me desvinculei desta linguagem rural. Claro que depois experimentei outras tendências, até chegar na poesia negra, na medida em que me conscientizava".
www.oliveirasilveira.blogspot.com
fonte: Isabel Clavelin - Sátira Machado/Copir
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Eu sou Maria Odete Diogo dos Santos, uma cidadã, negra brasileira.
A luta do povo negro por condições de igualdade não é tarefa fácil, possui um histórico de avanços e retrocessos. A exploração, a marginalização e o preconceito não foram abolidos, continuam a existir em diversos graus.
O braço negro construiu a riqueza deste país em nossos primeiros séculos de história. Onde isto é dito, onde se aprende a importância da cultura, da contribuição dos negros? Não chegamos ao Brasil como imigrantes, de livre vontade. Séculos de escravidão, açoites e humilhações marcam esta história. Aprendemos na escola a história da Europa. E a África?
Por isso é necessário que a Lei Federal 10.639 de 09 de janeiro de 2003, que tornou obrigatório o ensino da história da África e da cultura afro-brasileira, nas escolas de educação básica e fundamental, públicas e privadas, seja implementada em Esteio e demais cidades do Brasil, pois a inclusão do negro nos livros escolares é o início da desmitificação da “Democracia Racial”, é tornar público a luta dos negros, e a importância de sua participação na construção da sociedade brasileira, bem como sua valorização como negros-brasileiros. Após cinco anos da sanção da lei, é necessário que façamos uma reflexão sobre a questão étnico-racial e a não- aplicação da lei no planejamento escolar, pois são muitas as deficiências percebidas, que impedem sua implementação, desde a desatualização de livros didáticos, falta de formação, capacitação e conhecimento da história e da cultura africana pelos educadores, até a omissão do estado brasileiro em não fazer cumprir verdadeiramente a lei.
É preciso ver na diversidade o valor da humanidade, não queremos mais lamentar as exclusões e discriminações sofridas.
Pensar no futuro é pensar na raça humana. É querer as mesmas oportunidades para todos. É colocar em prática as leis, é respeitar os direitos humanos, e acima de tudo, enxergar os negros brasileiros como cidadãos brasileiros.
Os mitos que ao longo da história nos foram incutidos devem ser discutidos e enfrentados, a fim de que possamos desatar alguns nós. Ainda é comum ouvirmos expressões como “cabelo ruim”, “fede como negro”, “negro de alma branca”.
Estamos aqui para dizer “basta”, não aceitamos racismo dissimulado, disfarçado em elogio.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
CENTENÁRIO DE NASCIMENTO - SOLANO TRINDADE
Solano Trindade era poeta, pintor, teatrólogo, ator e folclorista. Nasceu no dia 24 de julho de 1908, no bairro de São José, no Recife, capital de Pernambuco. Além de grande poeta negro, Solano foi um lutador, defensor incansável da liberdade. Um de seus poemas mais conhecidos, "Tem Gente com Fome", foi musicado em 1975 pelo grupo Secos & Molhados. A música foi proibida pela censura, sendo resgatada e gravada em 1980 por Ney Matogrosso, no álbum "Seu Tipo". Mas, por causa desta música, em 1944, Solano foi preso e teve o livro "Poemas de uma Vida Simples" apreendido.
CONVERSA
- Eita negro!quem foi que disseque a gente não é gente?quem foi esse demente,se tem olhos não vê...
- Que foi que fizeste manopra tanto falar assim?- Plantei os canaviais do nordeste
- E tu, mano, o que fizeste?Eu plantei algodãonos campos do sulpros homens de sangue azul que pagavam o meu trabalho com surra de cipó-pau.- Basta, mano, pra eu não chorar,E tu, Ana,Conta-me tua vida,Na senzala, no terreiro
- Eu...cantei embolada, pra sinhá dormir, fiz tranças nela, pra sinhá sair,
tomando cachaça, servi de amor,dancei no terreiro,pra sinhozinho,apanhei surras grandes, sem mal eu fazer. Eita! quanta coisatu tens pra contar...não conta mais nada, pra eu não chorar -
E tu, Manoel,que andaste a fazer- Eu sempre fui malandroÓ tia Maria,gostava de terreiro,como ninguém, subi para o morro,fiz sambas bonitos,conquistei as mulatasbonitas de lá...
Eita negro!- Quem foi que disseque a gente não é gente?Quem foi esse demente,se tem olhos não vê.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Consciência Negra
Queremos ser agentes de transformação, contribuindo para a elaboração de uma sociedade fundada em valores de justiça e solidariedade, onde a presença e a contribuição do negro seja acolhida como um bem.
É nesse sentido que a contribuição negra precisa se dizer forte, precisa se dizer completa, não só porque queremos ser iguais, mas porque também queremos o desigual, porque queremos acolher a diferença. A grandeza da existência humana é poder trabalhar com a pluralidade, é poder compreender nas diferenças o conjunto da igualdade humana.
A Semana da Consciência Negra é uma boa oportunidade para celebrarmos a diversidade como fundamento e valor da humanidade.
Zumbi é hoje, para a população brasileira, um símbolo de resistência. 20 de novembro, data de sua morte foi adotada como o dia da Consciência Negra, o dia tem um significado especial para nós, negros brasileiros, que reverenciamos Zumbi como nosso herói que lutou pela liberdade e como um símbolo de liberdade.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Incoerência do TRT

A luta do povo negro por condições de igualdade não é tarefa fácil, possui um histórico de avanços e retrocessos. A exploração, a marginalização e o preconceito não foram abolidos, continuam a existir sob formas distintas. Um exemplo disso é a charge publicada na edição nº 45 do jornal Em Pauta do TRT 4ª Região.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Luta escrava no Brasil é tema de livro
A editora Expressão Popular lançou, recentemente, o livro Em busca da liberdade - traços das lutas escravas no Brasil, de Emilio Gennari.
“Este novo livro de Emilio Gennari traz à tona o velho sonho de todos os oprimidos do mundo de todas as épocas: a liberdade das garras da opressão. E, junto com o sonho, as lutas travadas em busca da liberdade”.
Mais informações em www.expressaopopular.com.br
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Criação da Secretaria de Combate ao Racismo fortalece a luta sindical
Realizada entre os dias 5 e 8 de agosto, no hotel Holiday Inn Anhembi, na cidade de São Paulo, a 12ª Plenária Nacional da CUT contou com delegação de todas as regiões do Brasil para debater e definir estratégias e ações da Central para o próximo período. Nessa Plenária foi aprovada a criação da Secretaria Nacional de Combate ao Racismo da CUT, proposta que fortalecerá a organização sindical cutista e o movimento negro brasileiro.
A Comissão Nacional Contra a Discriminação Racial da CUT (CNCDR/CUT), foi criada em 1992 com o objetivo de elaborar políticas de combate ao racismo para o movimento sindical, e de fortalecimento, junto aos demais movimentos e organizações, da luta anti-racial e pela conquista de direitos no Brasil.
Sabemos que essas lutas não são tarefas fáceis, possuem um histórico de avanços e retrocessos. A formação social brasileira foi profundamente marcada pela subordinação a um determinado desenvolvimento econômico que explorou riquezas e povos. A escravização do povo africano, o extermínio de povos indígenas e acumulação de riquezas nas mãos de poucos foram as marcas desse processo. Depois de formalmente abolida a escravidão no Brasil, a exploração, a marginalização e o preconceito não foram abolidos, continuaram a existir sob formas distintas.
Desde os quilombos, passando por inúmeras revoltas populares até as diversas organizações do movimento negro e sindical a luta foi travada arduamente. Fruto dessa luta histórica, nos últimos anos foi produzido um debate fecundo e importantes iniciativas foram colocadas em práticas para atenuar essas mazelas. O avanço desse processo dependerá da capacidade de luta que o movimento negro imprimir.
De nossa parte, acreditamos que demos um passo importante nesse sentido, que foi a criação da Secretaria de Combate ao Racismo da CUT. Não se trata apenas de uma medida administrativa, sua criação é fruto do acúmulo de milhares de militantes que se dedicaram, no interior da CUT e do movimento sindical, a pautarem as questões étnicas e raciais na luta da classe trabalhadora. Essa atual conquista não se daria sem a valiosa contribuição de todos e todas que construíram a CNCDR ao longo desses anos.
Até o próximo Congresso da CUT nossa tarefa é acumular ainda mais para que a Secretaria seja um espaço plural e democrático para os desafios futuros. Nesse sentido, é fundamental aprofundarmos os debates sobre a questão do Estatuto da Igualdade Racial e das Convenções 100 e 111 da OIT – cuja cartilha já está em processo de finalização, além de prosseguirmos com as demais ações aprovadas no Seminário Nacional de Salvador.
A luta do povo negro, se pautando pela devida relação entre as questões específicas do movimento com as lutas gerais da classe trabalhadora fortalecerá ainda mais o movimento sindical brasileiro e criará as condições de igualdade étnica e racial que tanto defendemos. Um passo dado, mas nossa marcha continua.
Marcos Benedito
Coordenador Nacional da CNCDR – Comissão Nacional Contra a Discriminação Racial da CUT