quinta-feira, 17 de junho de 2010

Estatuto da Igualdade Racial perde força

O Estatuto da Igualdade Racial é um instrumento legal importante, mas perdeu a força por deixar de fora pontos importantes para o movimento negro, como as cotas nas universidades e nos partidos políticos e as políticas para a saúde negra, afirmou hoje (17) a coordenadora do Movimento Negro Unificado (MNU) do Distrito Federal, Jacira da Silva. O texto foi aprovado pelo Senado na noite de ontem (16).Para ela, o texto aprovado, que vai para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é uma versão descaracterizada do texto original. “Em nome da negociação se chegou a essa versão final. Como instrumento legal é muito importante, mas se retirou quatro ou mais itens que eram a espinha dorsal do estatuto. É uma ação na contramão da política do governo”, analisou.Jacira se refere à questão das cotas para negros dentro dos partidos políticos, das cotas raciais em universidades, da política de saúde e da questão da posse da terra para comunidades remanescentes de quilombos. Esses pontos foram retirados por meio de acordo para que a votação no plenário do Senado Federal ocorresse.De acordo com Jacira, a garantia das cotas raciais é importante para reduzir disparidades. “As universidades federais e as não federais já adotaram o sistema de cotas raciais, e digo cotas raciais porque as cotas sociais permeiam qualquer tipo de discriminação, e a questão étnicoracial está presente desde a época da abolição da escravatura no Brasil, que deixou a população negra à mercê”, afirmou.Sobre as políticas para saúde, ela destacou a existência de doenças que têm maior incidência na população negra. “Estamos reivindicando, como direito de cidadania, uma política para saúde voltada para as incidências de doenças e prevenções que acometem a população negra. É uma questão genética e não política”, observou.A médica e Coordenadora da Comissão Intersetorial de Saúde da População Negra, Jurema Werneck, afirmou que a maior parte dos problemas de saúde que afetam a população negra está direta ou indiretamente ligada ao preconceito. “No caso das mulheres grávidas, por exemplo, nós temos os casos de hipertensão, que afetam mais mulheres negras”, explicou.Ela disse ainda que as mulheres negras, quando expostas à discriminação, acabam não tendo acesso a meios de prevenção de doenças e a um pré natal de qualidade. “Muitas vezes também não são repassadas informações de maneira correta. Elas enfrentam muitas dificuldades que estão relacionadas ao preconceito racial”, observou.Outro ponto importante para o movimento negro que foi suprimido no texto final foi a questão da posse da terra. De acordo com Jacira, grileiros e “coronéis” estão tomando as terras e empreendimentos como hidrelétricas estão “expulsando” populações remanescentes de quilombos que estão há mais de 200 anos no local.Jacira disse ainda que é uma responsabilidade de todos os parlamentares aprovar as leis que estão em tramitação no Congresso Nacional, como a que diz respeito a cotas raciais nas universidade, para preencher as lacunas deixadas pelos pontos que ficaram de fora do estatuto.“A sociedade precisa desses mecanismos e precisamos que as leis que estão no Congresso sejam aprovadas para garantir nossa liberdade de expressão, de defender socialmente nosso direito à saúde, educação, que são direitos vitais garantidos pela Constituição Federal”, disse.
(Agência Brasil)

Discriminação à mulher negra é destacada em ação publicitária

Agência e21 assina ação da STV e do Ministério do Trabalho
Com base em informações fornecidas pela organização Maria Mulher a respeito da discriminação da mulher negra no mercado de trabalho brasileiro, a STV, empresa de segurança, e o Ministério Público do Trabalho (MPT) lançaram campanha nacional para sensibilizar empresários e o público em geral sobre esse fato. A agência e21 criou três linhas criativas para escolha daquele que seria, inicialmente, o tema da campanha a ser veiculada em nível regional e por tempo determinado. Em função do bom resultado alcançado, o Ministério e a STV resolveram ampliar a cobertura e o tempo de veiculação, colocando todas elas, encadeadamente, nas ruas.
No Rio Grande do Sul, a veiculação ocorrerá por 10 meses, de junho de 2010 a março de 2011. Nacionalmente, serão utilizados cartazes e outras formas de divulgação, por tempo indeterminado. Todas as peças trazem dados sobre a situação das mulheres negras no mercado de trabalho brasileiro, com comparativos entre sexo, cargos e salários. A mensagem não tem um público específico, mas pretende sensibilizar a sociedade, divulgando, inclusive, um canal para denúncia de suspeitas de discriminação que por ventura estejam ocorrendo.
O plano de mídia previu como principal meio de divulgação uma série de anúncios de página inteira e meia página, coloridos e PB, que serão veiculados nos principais jornais gaúchos, com circulação na Capital e interior. Como sustentação, foi determinado forte impacto em mídia externa, com centenas de outdoors em ruas e avenidas de grande fluxo de Porto Alegre, Região Metropolitana e Vale do Sinos. A campanha offline ganhará reforço com banners eletrônicos, desenvolvidos pela e21 Digital, que serão publicados na capa de sites informativos de grande acesso na região.
Para complementar, serão veiculados anúncios de busdoor e vinhetas de 15”, sem áudio, no Canal Você, transmitido em monitores LCD no interior dos ônibus. Além disto, cartazes foram para fixação em pontos estratégicos da Capital.
fonte:http://www.coletiva.net/site/noticia

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Audiência questiona governo por violência contra negros

O governador, o secretário de Segurança Pública e o Comandante Geral da Polícia Militar devem prestar contas sobre a violência contra negros no estado de São Paulo. Essas autoridades foram convocadas para uma Audiência Pública a ser realizada nesta quarta-feira (9), às 14 horas, pela Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP).
Segundo o integrante da Uneafro Brasil (União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora), Douglas Belchior, a Audiência é resultado de uma série de mobilizações iniciada em novembro de 2009 com a ocupação do prédio da Secretaria de Justiça e intensificada em 13 de maio, após o assassinato de dois motoboys negros.
“A gente espera que eles estejam presentes para que possamos fazer um bom debate e olhar nos olhos dos assassinos para dizer que não vamos nos calar diante das atrocidades. Agora, não tenha dúvida de que uma recusa ao convite é uma forma covarde de assumir a culpa.”
Belchior acredita que a iniciativa aproximou o movimento negro de movimentos urbanos, camponeses e indígenas.
“Já há algum resultado positivo nessa iniciativa, que é a mobilização dessas organizações em torno de uma luta comum. Que, aliás, é uma luta importante para a nossa vida. Afinal de contas, é lutar contra a opressão violenta de um Estado assassino que tem como alvo preferencial a juventude negra.”
Na última semana, a Organização das Nações Unidas (ONU) demonstrou preocupação com o crescimento do número de execuções sumárias no Brasil. Os estados do Rio de Janeiro e São Paulo registraram juntos – entre os anos de 2003 e 2009 – mais de 11 mil assassinados nos conhecidos casos de resistência seguida de morte.
De São Paulo, da Radioagência NP, Jorge Américo.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Autor de A negação do Brasil conversa com o BoletimNPC sobre a primeira protagonista negra em uma novela brasileira

Por Núcleo Piratininga de Comunicação
Autor de A negação do Brasil conversa com o BoletimNPC sobre a primeira protagonista negra em uma novela brasileira
Joel Zito Araújo é doutor em Comunicação pela ECA/USP, cineasta e roteirista. Realizou, a partir de 1984, 24 documentários e 22 médias metragens. Em 2000, dirigiu o documentário e lançou o livro A negação do Brasil, sobre a participação de atores negros na televisão. A atriz Thaís Araújo é uma das protagonistas do seu filme Filhas do Vento.Não deixe de ler esta entrevista exclusiva ao BoletimNPC sobre a primeira vez em que uma telenovela brasileira tem uma negra como protagonista. Revela muito sobre a nossa história, a nossa cultura e a nossa gente.
Por Jéssica Santos (NPC)
Boletim NPC
- Como o senhor avalia a participação da primeira protagonista negra em uma novela das oito?
Joel Zito: Eu não vi o final da novela. Fiquei muito decepcionado. Achei que teve uma certa dificuldade, já que a protagonista deixou de ser a protagonista. Então do meio da novela para frente deixei de me interessar como espectador, e como pesquisador eu falhei no sentido de não me forçar a ver. Desde o início eu achei uma espécie de armadilha porque essa dificuldade dos autores de telenovela no Brasil de entender a história do negro, de entender a condição de ser negro no país, acaba provocando essa dificuldade de reapresentação.
No inicio da novela eu achei interessante ter a Tais Araujo em um papel de uma mulher que era uma modelo internacional reconhecida. Porque ser modelo significa ser o melhor, o mais belo. Digamos, representa algo de especial na sociedade. Modelo significa modelo de beleza. E a Tais nesse lugar da novela eu achava que era simbolicamente muito especial para sociedade brasileira, para a juventude negra e branca ver uma mulher negra nesse posto, sendo disputada na trama da novela, sendo invejada por outras pelo seu lugar de modelo. Então eu achei uma ideia inteligente, essa Helena negra entrar no lugar de modelo.
Boletim NPC - O que o senhor chama de armadilha?
Joel Zito: Então, o que eu estou chamando de armadilha é porque no inicio o padrão de vida daquele grupo de elite do qual a protagonista fazia parte era tão ostensivo que eu acho que criou antipatia com a personagem. Era uma personagem que casa e vai de avião particular para Paris. Um padrão de vida altíssimo. A minha impressão é que o povo brasileiro não está agüentando mais esse exibicionismo. E é obvio que é uma característica de toda heroína de telenovela é o sofrimento, é a dor. Tanto que a verdadeira protagonista foi a personagem da Aline de Morais exatamente por conta do acidente, por ela ter se tornado paraplégica. Isso comoveu o publico. O esforço dela de transformação, de superar a doença, com aquela trama lá. No meu ponto de vista muito bobinha, da mãe que não queria o casamento do filho... isso comoveu o público.
Boletim NPC - Teve um momento da novela que chocou e causou repúdio da população negra.
Joel Zito: Foi o momento que ela leva o tapa de joelhos. Há cerca de 15 anos, entidades negras de São Paulo ingressaram com uma ação na Justiça contra a Rede Globo por ter colocado um personagem que foi praticamente espancado pelo vilão da novela, que era interpretado pelo Tarcísio Meira, e que não reagiu. Aquilo passou em branco por parte do público, mas as entidades negras reagiram. Agora, passados quinze anos o público reagiu, e isso é algo muito interessante em termos de consciência social do Brasil, porque a reação do público foi tão evidente que a partir daí se viu uma série de justificativas que foram dadas pelo autor da novela, pelos diretores, pelos atores, que não tinham nada a ver, enfim. A reação dessa parcela de público chegou lá.
Boletim NPC - A chance de ter uma protagonista negra foi aproveitada para combater o racismo?
Joel Zito: A chance foi estragada pela trama da novela e por essa falta de sensibilidade e falta de educação daqueles que produzem a telenovela para a questão racial. A elite brasileira quer ignorar a questão racial, uma vez que não quer lidar com as conseqüências da escravidão e com a falta de políticas sociais para a população negra pós-escravidão. A elite quer fazer de conta que nós somos um país sem o problema do racismo. Aqueles que trabalham na elite econômica e cultural, que estão no topo das telenovelas, têm uma certa afinidade com esse pensamento.
Ouvir isso que estou te falando agora é uma coisa antipática. Então, a postura é assim: não me venha incomodar com a questão racial, nós não queremos ouvir. Nós não pensamos isso, você é que pensa. Você que é o complicado, você que é o racista. Para estes, racista é quem denuncia os incômodos do racismo e não quem pratica o racismo no dia-a-dia.
Então temos uma série de articulistas que escrevem nos jornais, que a mensagem é clara: os racistas são esses que ficam denunciando o racismo, porque, para ele, não ser racista significa não pensar no racismo. Quem pensa no racismo é que é o racista. Não é quem provoca na estrutura social a permanência do negro como subalterno que é racista.
BoletimNPC – O senhor poderia nos dar um exemplo
Joel Zito: Por este pensamento, os racistas não são os envolvidos no assassinato do jovem negro dentista em São Paulo. Racistas somos nós que estamos levantando as evidências do racismo e as evidências do sofrimento de uma parcela do povo negro que é vítima. Embora a intenção inicial do autor fosse ter pela primeira vez a Helena negra, isso não deu certo porque a Helena no início foi antipática porque era elitista, era esnobe e depois foi antipática porque era submissa. Então o sofrimento da Helena, no meu ponto de vista, na minha sensibilidade, foi rejeitado porque era um sofrimento de submissão. É diferente do sofrimento do personagem da Aline Moraes, que era um sofrimento de reerguimento, de superação. Enquanto Aline sofria para superar, a Helena sofria de submissão. Então ser boazinha neste caso pegou mal. Do mesmo jeito que pegou mal ser muito de elite. Muito acima do bem e do mal. Foi dessa forma que eu analisei a novela até onde eu vi.
Boletim NPC- Em A Negação do Brasil uma das atrizes fala que não importa se o papel é de empregada doméstica, se ele tiver consistência. Faltou isso?
Joel Zito: Acho que faltou. Acho que de modo geral sempre falta. Então as pessoas acertam mais nos personagens cômicos. Então falta isso, falta essa percepção da personagem.
Boletim NPC - Na novela tinha outros personagens negros
Joel Zito: Pois é, aqui eu aproveito para te perguntar que fim levou a irmã da Helena, Sandrinha, e seu casamento com Benê, o jovem marginal da favela?
Boletim NPC - A Sandrinha apontou que iria abandonar o marido, mas Benê optou por se regenerar. Ele decidiu sair do tráfico e conseguiu o emprego, mas não quis sair da favela. Então, quando ele voltou, já com emprego, foi assassinado dentro favela. No final, tem toda uma idéia de regeneração de vários personagens da novela, mas o personagem negro morre.
Joel Zito: É o único que não tem direito a se regenerar. Por isso eu acho que falta sensibilidade. Imagina a quantidade de pessoas que vivem esse drama real. Que tipo de mensagem que você está dando para o jovem negro que com certeza vê o personagem porque a telenovela e a televisão é praticamente o único instrumento de lazer. A novela e o futebol. Então que mensagem de desesperança, que tapa na cara esse jovem recebe. Enquanto as pessoas que são portadoras de deficiência física recebem uma mensagem de olha, você pode mudar de vida, você pode casar, ter filhos. Então, o jovem que passou pela ação do narcotráfico, eu diria que simbolicamente é uma cumplicidade com a exterminação desse jovem. É triste. Eu acho que essas coisas são feitas pela falta de reflexão, pela arrogância dessas pessoas que não querem refletir a questão racial e portanto a condição do negro no Brasil. Essa arrogância faz com que os dramaturgos, o autor da telenovela e sua equipe errem na mão. Não param para pensar nisso. Porque não oferecer essa mensagem aos jovens, que estão com dúvida, com vontade de sair do narcotráfico. De oferecer essa mensagem que ele pode sair, que pode ter uma vida fora do mundo do crime. Porque não dar essa gota de esperança?
Boletim NPC - Na internet, em alguns fóruns sobre o desfecho do personagem, dá para encontrar muita gente comentando que o que aconteceu com o Benê retrata a realidade do que acontece com o jovem que entra no mundo do crime.
Joel Zito: A novela não retrata a realidade. A novela se espelha na realidade, dialoga com a realidade, mas a característica folhetinesca da novela é exatamente de se descolar da realidade. As novelas nunca foram realistas. As casas, os ambientes não são realistas, os personagens e seus dramas não são realistas. E esta é uma característica do folhetim. Aqui não se trata mais de uma critica a telenovela. O folhetim sempre foi assim, desde o seu nascimento, ele não precisa mudar, é o seu formato.
Boletim NPC - O senhor fez um paralelo entre a reação do público na cena em que a Helena é agredida e uma outra, de uma telenovela, de anos atrás, em que um personagem negro também sofre um tipo de agressão, mas não houve reação do público. Na sua avaliação houve uma mudança na conscientização racial do público ao longo do tempo?
Joel Zito: Isso é muito evidente. Eu sou de uma geração em que se discutia na universidade a questão racial entre nós mesmos, 10 a 12 estudantes afro-descendentes. A questão racial hoje é uma questão nacional. Quer queiram, quer não queiram. A boa parcela da juventude negra hoje tem um bom nível de consciência. Obvio que tem uma faixa grande da população que vive nesse quadro simbólico da subalternidade e do colonialismo. Nós vivemos numa situação pós-colonial em que as nossas elites ainda são colonialistas.
Lembro de uma entrevista que li do Roberto DaMatta que diz que as nossas elites não gostam do Brasil, não gostam de viver aqui. Há uma persistência do pensamento colonial, do pensamento Casa Grande e Senzala. Isso aqui ainda é uma grande fazenda para muita gente.
Mas tem uma parcela muito grande da população que não vê mais assim, que tem orgulho desse país, do lugar internacional que nós temos e eu particularmente sou desse grupo, desse otimismo. E acho que, portanto, dentro da juventude negra e dentro da população negra tem uma faixa muito grande de gente com consciência disso.
Agora, você tem um segmento que ainda está debaixo da bota da subalternidade. Uma faixa grande de pessoas negras com auto-estima negativa, que não gostam de ser negras. Que qualquer traço de miscigenação já faz dessa pessoa mais branca do que negra, tratam os irmãos negros como escória, ou seja, que tem internalizado o racismo da sociedade.
Tem essa prática dentro da polícia que trata as pessoas com características afro-descendentes de forma agressiva, violenta. Tem essa característica no universo escolar dos professores que tratam crianças mais brancas de um jeito diferente. Então tem essa internalização do sentimento colonial em uma parcela grande da população.
Mas comparando 2010 com a minha adolescência nos anos 70, nós estamos vivendo em outro país. Fico feliz quando hoje vou a um congresso e encontro muitos pesquisadores jovens negros. Do ponto de vista racial vamos ficar cada vez melhores, quer queiram, quer não queiram as nossas elites. E não é à toa que as elites não querem porque a grande característica do Brasil e a sua grande contradição é de ser um país rico, somos a 8ª economia no mundo acho, e somos ao mesmo tempo um país pobre porque temos a maioria da população que não tem acesso às riquezas do país.
Então somos um país estruturalmente muito mal dividido e faz parte de manter esse país mal dividido a internalização da subalternidade dos segmentos negros e indígenas. Então a questão racial no Brasil não é uma questão à parte, só uma questão cultural. É uma questão que está no cerne do grande problema do Brasil que é a enorme distância entre ricos e pobres. É isso que faz com que uma parcela de elite, de classe média veja de forma tão ruim esse povinho. “Ah esse país é maravilhoso, pena que tem esse povinho que colocaram aqui.” E quando falam “esse povinho” estão se referindo a nós.
Boletim NPC - E como os grandes meios de comunicação entram nessa história?
Joel Zito: São os grandes meios de comunicação que tem mais cumplicidade com as elites, que são donos deles. Na grande mídia, parece que seus objetos são as novelas, os telejornais, os jogos de futebol. Mas não é verdade. O grande objeto é o anuncio, é a publicidade. Então a cumplicidade maior não é com o espectador, é com o anunciante. E a lógica do anuncio é a de participar da sociedade de consumo. Especialmente essa nossa mídia sempre esteve voltada para os segmentos de classe média alta e para a própria elite. É o carro que o povo não compra, o setor imobiliário, turismo e outros segmentos que o povo não compra. Então aquela publicidade dirigida às classes C, D e E é relativamente insignificante a publicidade dirigida às classes médias e altas. A cumplicidade da mídia é com seu patrocinador. E esse patrocinador felizmente está mudando. A gente tem alguns segmentos empresariais que já demonstram ter responsabilidade social.
Boletim NPC - Assim como nas telenovelas, pouco se vê negros na publicidade. De um tempo pra cá, nota-se mais atores negros em comerciais. Você avalia que há uma preocupação em mostrar essa parcela da população ou há somente o interesse mercadológico de atingir determinado público mais diretamente?
Joel Zito: Eu acho bom que alguns tenham consciência disso. Não vejo isso com negatividade, a preocupação mercadológica. Eu acho que tem dois segmentos distintos: tem o da preocupação mercadológica, como por exemplo, as companhias de telefonia celular, que há muito tempo fazem publicidade para o público negro e não é toa que todo mundo usa celular. Mas também tem as empresas estatais, com, por exemplo, a Petrobras e do Banco do Brasil, que tem uma incorporação de negros e famílias negras em um ambiente muito positivo. Ali eu percebo um compromisso dessas instituições.
Boletim NPC - Que pode ser feito, para que haja uma mudança real na percepção de como os negros são vistos?
Joel Zito: Eu acho que são muitas frentes de batalha. Acho que a formação é uma delas. As escolas, inclusive as de jornalismo, comunicação e cinema tem que incorporar esse tipo de discussão. Não se pode deixar uma USP formar novos jornalistas, formar novos diretores sem trazer para eles uma realidade que eles não têm no seu dia-a-dia. Aqueles meninos que de classe media alta que vive na Zona Sul de São Paulo precisam discutir a questão racial.
O outro elemento é que a realidade mudou muito por conta dos protagonistas negros, das ONGs negras, do movimento negro, da intelectualidade negra, dos artistas negros. Então esse protagonismo é fundamental para a mudança. Eu acho que parte da ação desses protagonistas negros tem que se dirigir para aqueles segmentos de classe média que não é só negra é branca, mas que tem uma profunda identidade e conhece a necessidade de mudança e que busca se reeducar para romper com esse colonialismo na nossa formação como cidadãos do Brasil. Então nós temos um campo de articulação e de parceria muito grande que não pode ser ignorada e tratado de forma desrespeitosa como eu vejo por alguns segmentos militantes.
Outro segmento que considero importante é à entrada de jovens negros na universidade. De aumentar essas vagas e criar possibilidades de crescer esse numero de alunos negros na universidade. Isso vai oxigenar a universidade, trazendo uma realidade fora da realidade zona sul, de classe média branca e fazer essas pessoas voltarem a pelo menos ter um ponto rico de debate sobre a realidade brasileira. E fazer dessa juventude branca que está entrando na universidade, fazê-la mais comprometida e tendo um parceiro do seu lado que faça ele refletir. Acho que as cotas e essa possibilidade de entrada de estudantes negros na universidade vai ajudar a gente a construir um Brasil diferente.
Boletim NPC - Para além das cotas, o que mais pode ser feito enquanto política pública?
Joel Zito: Esses pontos estão diretamente ligados a isso. Tem outros pontos indiretamente relacionados. Obvio que a medida que você melhore as condições de vida e de saúde, quando se tem política de emprego e uma parcela cada vez maior de famílias negras com estabilidade e com salários dignos, paralelo a isso políticas sociais como o bolsa-família, a entrada e persistência desses jovens no ensino básico e fundamental e obvio que essas políticas sociais atingem aquele segmento mais negro e mais indígena, que historicamente foram segregados, que estão na ponta da sociedade, mas distantes de com mais dificuldade de acesso.
Tem uma opção de políticas indiretas que você vai melhorar a qualidade de vida do povo negro e a medida que isso acontece, vão surgir naquele grupo pessoas que vão se destacar e assumir lugares chaves na sociedade. Portanto, não quero reduzir a solução só as cotas, ou só a formação de estudante nas escolas de comunicação, enfim, eu acho que há um conjunto de coisas que são agregadoras dessas mudanças. E outra coisa são trabalhos como o que eu faço de multiplicar as pessoas que refletem isso, uma forma de enriquecer o debate.
Um exemplo: eu fiquei muito feliz quando eu filmei no mês de março aquelas audiências no Supremos Tribunal Federal que julgou cotas nas universidades. Eu fiquei orgulhoso porque quando eu pude comparar aquele eram contra políticas afirmativas com aqueles que eram a favor, era de uma pobreza a argumentação dos que eram contra e de uma riqueza a argumentação dos que eram a favor, isso me deu orgulho e otimismo da mudança porque os que eram contra tivessem argumentos muito sólidos e uma reflexão profunda, me daria temor e até dúvida sobre aquilo que abracei. Mas foi muito pelo contrário, pois me deram cada vez mais certeza das causas que eu abraço em torno das questões raciais. Então nós temos também um crescimento intelectual de pessoas pensando e refletindo em cada área podendo debater com qualidade, educação e respeitabilidade.
Fonte: http://www.piratininga.org.br/

quarta-feira, 12 de maio de 2010

13 de maio de 2010


O 13 de maio traz à tona o velho sonho de todos os oprimidos do mundo de todas as épocas: a liberdade das garras da opressão. E junto com o sonho, as lutas travadas em busca da liberdade.
13 de maio dia dos pretos velhos - Os Pretos Velhos representam a força, a resignação, a sabedoria, o amor e a caridade. Com seus cachimbos, fala pousada, tranquilidade nos gestos, eles escutam e ajudam àqueles que necessitam, independente de sua cor, idade, sexo e religião.
O braço negro construiu a riqueza deste país em nossos primeiros séculos de história. Onde isto é dito, onde se aprende a importância da cultura, da contribuição dos negros? Não chegamos ao Brasil como imigrantes, de livre vontade. Séculos de escravidão, açoites e humilhações marcam esta história. Aprendemos na escola a história da Europa. E a África?
Acredito que a inclusão das disciplinas de historia e cultura africana e indígena nas escolas ajudarão a combater o preconceito, por esse motivo é que a inclusão do negro nos livros escolares é o início da desmitificação da “Democracia Racial”, é tornar público a luta dos negros, e a importância de sua participação na construção da sociedade brasileira, bem como sua valorização como negro-brasileiros. Após 7 anos da sanção da lei, é necessário que façamos uma reflexão sobre a questão étnico-racial e a não-aplicação da lei no planejamento escolar, pois são muitas as deficiências percebidas, que impedem sua implementação, desde a desatualização de livros didáticos, falta de formação, capacitação e conhecimento da história e da cultura africana pelos educadores, até a omissão do estado brasileiro em não fazer cumprir verdadeiramente a lei.
Sugestão de filme:
Cafundó é inspirado em um personagem real saído das senzalas do século XIX. Um tropeiro, ex-escravo, deslumbrado com o mundo em transformação e desesperado para viver nele. Este choque leva-o ao fundo do poço. Derrotado, ele se abandona nos braços da inspiração, alucina-se, ilumina-se, é capaz de ver Deus. Uma visão em que se misturam as magias de suas raízes negras com a glória da civilização judaico-cristã. Sua missão é ajudar o próximo. Ele se crê capaz de curar, e acaba curando. O triunfo da loucura da fé. Sua morte, nos anos 40, transforma-o numa das lendas que formou a alma brasileira e, até hoje, nas lojas de produtos religiosos, encontramos sua imagem, O Preto Velho João de Camargo.
Sugestão de vídeos:
Assista aos vídeos disponibilizados na página: http://www.acordacultura.org.br/, venha conhecer os Heróis de Todo Mundo. Este projeto tem como propósito construir uma nova prática para pensar e agir as relações educacionais plurirracial e multicultural, dando visibilidade à cultura afro-descendente como protagonista na construção histórica do nosso país.
Sugestão de leitura:
O livro - Em busca da liberdade - traços das lutas escravas no Brasil - de Emilio Gennari traz à tona o velho sonho de todos os oprimidos do mundo de todas as épocas: a liberdade das garras da opressão. E, junto com o sonho, as lutas travadas em busca da liberdade. Um texto leve e bastante informativo, de acordo com a editora, leva o leitor a um passado histórico que “é muito mais do que um momento distante”. A busca da liberdade exige lutas e a compreensão disso “é um passo indispensável para se entender profundamente a realidade atual”. O livro ressalta a necessidade do conhecimento e da compreensão de nosso passado para entendermos o nosso presente. Só assim teremos condições para continuar a nossa busca pela liberdade.

terça-feira, 11 de maio de 2010

CULTURA HIP HOP SITIADA PELO PRECONCEITO

Em artigo do dia 7 de maio, publicado no jornal O Timoneiro, de Canoas/RS, o sr. José Truda Palazzo Jr. mostrou um profundo desrespeito pelos cidadãos pobres que moram na periferia de Canoas, ao afirmar, em uma generalização inadmissível, que a “bandidagem age impunemente das vilas periféricas ao centro”. Como se as vilas fossem antros de bandidos, e não o lugar de morada de trabalhadores honestos. Além disso, afirmou que, não por acaso, uma festa promovida pela atual administração da Prefeitura de Canoas – à qual fez várias acusações ao longo do artigo – teria, entre as atrações, um grupo chamado Rafuagi.O sr. José Truda Palazzo Jr, diretamente, associou o grupo de hip hop Rafuagi ao que considera “rafuagem política”, a ações da prefeitura que, na opinião do colunista, são reprováveis. O referido texto afetou diretamente a mim e minha família, que recebemos dezenas de mensagens e telefonemas e apoio de amigos indignados. O grupo é composto por meu filho, Rafael Diogo dos Santos, estudante de Publicidade, e seus amigos Ricardo Smidt, fotógrafo e Dj Croko, modelista de calçados. Rafuagi é uma sigla. Surgiu das iniciais de “Rafael Fusão de Amigos Gilmar” (este último fazia parte da formação inicial do grupo, em 2004). Também é uma ironia, uma provocação para quem pensa que os moradores da periferia são “a rafuagem” social.Uma simples pesquisa em qualquer programa de busca na internet teria feito com que o sr. José Truda Palazzo Jr ficasse mais bem informado e evitasse a gafe de imiscuir um trabalho artístico sério em suas desavenças com o governo canoense. Saberia também que o Rafuagi tem ações sociais reconhecidas em projetos de conscientização contra o uso de crack e outros entorpecentes em Canoas e Esteio. E que já fez apresentações com nomes conhecidos nacionalmente, como MV Bill, Rappin Hood, Racionais Mcs, Nitro Di, Lica, Daguedes, DJ Anderson (Ultramen). No currículo, o grupo traz duas premiações no Hutuz, como Revelação em hip hop na América Latina e como Melhor Demo Masculino da Década na categoria. Já teve matérias divulgadas nos maiores jornais do RS, Folha de São Paulo e em programas de televisão e rádio. Assim como vários outros jovens da periferia, abrem caminho com dedicação e seriedade. E vão continuar a fazê-lo. Que Canoas não se torne uma cidade sitiada pelo preconceito e pela exclusão social e cultural é o que desejamos.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Quem tem medo de raça? A paranóia branca e as ações afirmativas no Brasil.

Jaime Amparo-Alves (1)

“Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas,
como nos Estados Unidos.
Mas fazemos o que talvez seja pior.
A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações.
Nós os tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um
desprezo que fermenta em nós, dia e noite”

Nada de original. Em Fora da Lei(2), Demétrio Magnoli reproduz com um atraso de dez anos a crítica feita por Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant sobre uma suposta importação do modelo de relações raciais estadunisense pelo movimento negro brasileiro e seus intelectuais. Em Sobre as artimanhas da razão imperialista(3) os autores acusavam os intelectuais negros estadunidenses de imperialistas culturais – a crítica é direcionada principalmente, embora não exclusiva, ao livro de Michael Hanchard ‘Orfeu e o poder’ (2001)(4) - e a emergente academia negra norte-americana de impor uma falsa universalização do racismo aos países do chamado terceiro mundo. Haveria um certo excepcionalismo brasileiro no campo das relações raciais que faria o Brasil ser diferente. Ainda, os autores rotulavam o intercambio – cada vez mais crescente – entre intelectuais negros dos dois países de tática estratégica para a imposição de um modelo bi-polar de relações raciais só presente na America do Norte. As agencias de financiamento como a Fundação Ford aparecem na critica como o exemplo mais concreto do imperialismo cultural disfarçado de intercambio acadêmico. O debate que se seguiu à crítica de Bourdieu e Wacquant já é conhecido. John French, Edward Telles, Jocélio Telles, Michael Hanchard, entre outros, responderam dando o merecido crédito à autonomia intelectual negra no Brasil e mostrando que a tão propalada excepcionalidade brasileira não se sustenta quando contrastada com as condições de vida dos brasileiros negros.
A volta ao debate nos dá a oportunidade de reenfatizar um aspecto central da experiência negra nas Américas: em todos os países negras e negros ocupam índices cruéis na hierarquia social. Não há nada de excepcional no quadro de relações raciais do Brasil e a similaridade nas ‘condições materiais de existência’ – em que pese suas especificidades – ajudam a tecer uma comunidade política imaginada e concreta, a Diáspora Africana. O que há em comum na experiência d os jovens negros das favelas cariocas e os jovens negros dos guetos de Chicago ou Nova York? O que une o viver urbano de negras e negros do Haiti, da Colômbia, de Cuba, dos EUA, do Brasil, dos países africanos? Quais as especificidades e as semelhanças na representação midiática de negras e negros nas Américas e nas Áfricas? Portanto, para desconstruir o mito da suposta importação acrítica do padrão de relações raciais dos EUA, teríamos que perguntar aos neo-freirianos do momento por que a fobia com a crescente conscientização política transnacional negra e por que os negros brasileiros aparecem em seus textos como incapazes de possuírem uma autonomia intelectual própria.
Tal fobia está presente nos textos de Demétrio Magnoli. Em Fora da Lei, o autor repete as táticas já conhecidas nos seus textos anteriores. Trata-se do recurso lingüístico de imputar a outrem afirmações que ninguém fez. Quem no movimento negro teria se oposto à defesa da qualidade do sistema público de ensino? Quem teria afirmado a existência biológica de raça? Haveria uma incompatibilidade na luta pela democratização do acesso à universidade pública e a defesa da escola pública?
De um lugar social racialmente privilegiado, os neo-freirianos ambiguamente reconhecem a existência do racismo, mas não admitem a luta política contra suas manifestações cotidianas. É como se raça fosse uma construção social sem impactos reais diferenciados nas chances de vida de brancos e negros(5). Esse social construtivismo na verdade esconde uma paranóia contra qualquer forma de organização política que questione a supremacia branca. Ao contrário do que se quer fazer crer, o que orienta tais posicionamentos políticos não é a preocupação com o renascimento do ‘estado racial’ ou a suposta defesa da igualdade entre todos. Os terrenos estão bem demarcados e não há ingenuidade no debate: a organização política dos negros e negras representa uma ameaça real ao poder político-econômico de uma elite branca que tem na academia e na mídia seus principais instrumentos ideológicos. Faz sentido, portanto, que intelectuais reconhecidamente competentes no repertório acadêmico como Ivone Maggie, Peter Fry, Márcia Green, e agora Demétrio Magnoli se prestem ao papel de arquitetos do caos e invistam suas carreiras acadêmicas na construção do ‘apocalipse racial’.
O mundo não vai acabar com as cotas nas universidades públicas, como mostra o exemplo positivo da Universidade de Brasília - a primeira instituição federal de ensino superior a aprovar cotas para negros - e das quase cem instituições públicas que adotam algum programa de ações afirmativas. Estas instituições estão recuperando o sentido republicano da universidade pública(6). Quem tiver curiosidade de estudar os números da inclusão verá que as cotas raciais começam ajudar o Brasil na longa marcha em busca do reencontro consigo mesmo. As ‘divisões perigosas’ que historicamente têm colocado em lugares sociais distintos negros e brancos – os primeiros nas favelas, nas prisões, na pobreza, nas estatísticas insidiosas da violência policial, no chão das fábricas e os segundos nas melhores universidades públicas, nos condomínios fechados, na direção dos conglomerados empresariais – são a verdadeira ameaça à efetivação da igualdade substantiva entre todos os brasileiros. A luta dos negros e negras por igualdade de direitos vai ajudar a consolidar a cidadania e transformar a democracia racial em uma realidade concreta. Só a luta organizada por igualdade racial de fato poderá desbancar o mito da harmonia racial.
As ações afirmativas não farão surgir um tribunal racial nem criarão uma ‘rotulação estatal dos cidadãos segundo o critério abominável da raça’. De fato, ‘raça’- como empregada por Demétrio Magnoli - é um critério abominável, como o é sua má-fé e o seu cinismo de colocar na mesma cesta a luta do movimento negro pela igualdade racial e o estado nazista alemão. Ao reivindicar a categoria raça como identidade política, negras e negros o fazem a partir de uma perspectiva crítica e o fazem porque os brancos não deixaram outra escolha no campo das disputas políticas(7). Racialmente interpelados(8) como ‘negros’ – com toda significação histórica que a palavra carrega – no contexto de desigualdades racialmente estruturadas negras e negros re-significam a categoria ‘raça’ e tecem uma nova identidade política. Fazem sentido da vida e dos seus encontros cotidianos racializados a partir da identificação com um grupo social.
Se no embate político por direitos de cidadania novos brasileiros se reencontram com seu passado e quebram o paradigma da linha cromática sempre em direção ao branco, ainda melhor. O reconhecimento da negritude está em sintonia com a celebração da diversidade étnico-racial tão forte entre nós. Mas é hora de celebrar a diversidade brasileira não apenas no futebol ou no botequim, como certa antropologia da cordialidade sugere. É hora de miscigenar os espaços de poder.
O movimento negro está abrindo, no grito e na raça, uma porta ha tempos fechada. A intelectualidade negra cresce e com ela um novo paradigma na produção de conhecimento sobre as relações raciais no Brasil e nas Américas. Não seria a resistência às ações afirmativas um sintoma da impossibilidade cognitiva dos brancos em reconhecer seu privilegio e o lugar de onde falam?

Notas

(1)Jornalista e doutorando em Antropologia Social, Universidade do Texas, em Austin. Email: amparoalves@gmail.com
(2) O artigo foi publicado n’O Estado de S. Paulo, de 18 de fevereiro de 2010, pp.02
(3) Em Estudos Afro-Asiáticos, Ano 24, nº 1, 2002, pp. 15-33
(4) HANCHARD, Michael (2001). Orfeu e Poder. Movimento Negro no Rio e São Paulo. Rio de Janeiro, EdUERJ/UCAM.
(5) Não é a toa que O Atlantico Negro, de Paul Gilroy, ocupe hoje no Brasil, mesmo nos círculos radicais negros , um lugar de destaque.
(6) Após seis anos de cotas racias, a UnB ainda possui uma população afrodescendente sub-representada (eles são pouco mais de 3 mil dos 26 mil alunos).
(7) Tem sido ainda pouco explorada a discussão sobre a incapacidade da esquerda brasileira em incorporar a dimensão de raça em sua estratégia política. O reducionismo econômico da luta de classes é sintomático da dificuldade, mesmo entre os mais progressistas intelectuais de esquerda, em entender a experiência negra.
(8) Emprego o termo aqui no sentido dado por Althusser em "Ideology and ideological state apparatuses." Eds. J. Rivkin & M. Ryan. Literary theory: An anthology. Malden: Blackwell Publishers, 1998. pp. 294-304. E ampliado por Stuart Hall em "The rediscovery of ideology." Eds. J. Rivkin & M. Ryan. Literary theory: An anthology. Malden: Blackwell Publishers, 1998. pp. 1050-1087.