sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A falta de negros nos meios de comunicação, a falta de terras para os quilombolas, a falta de negros nas universidades, fere a Constituição, a Carta Magna de 1988 que diz que perante a lei somos todos iguais, isso por si só não basta, é necessário implementar políticas públicas, para desmitificar a suposta democracia racial que vivemos.
No Brasil temos vítimas do racismo, mas nunca é identificado o racista, precisamos enfrentar o racismo para só assim encontrar soluções para combater este mal.
Há séculos o racismo brasileiro coloca a população negra em situação de desigualdade, e isto só será superado com ações afirmativas (cotas-tratamento desigual para permitir a igualdade de oportunidades a quem esta em condição inferior), como as utilizadas nos EUA e na África do Sul. Resistir às ações afirmativas é lutar para não perder benefícios do racismo. As cotas não são para discutir a raça/etnia e sim para corrigir uma dívida histórica que este país tem com os negros.
O Brasil é um misto de culturas e de civilizações, alguns vieram voluntariamente, outros não, vieram traficados, escravizados, com certeza ambos contribuiram para formar a história do povo brasileiro, só que quando olhamos os livros didáticos, a referência é européia e nada consta sobre os índios, os negros, sobre a história da África, fica o questionamento: Por que os negros têm obrigação de conhecer a história de seus compatriotas de descendência Européia? E porque a história dos negros, a história da África não é ensinada? É urgente e necessário que a LEI 10639/03 seja colocada em prática, visto que em quase todo o território nacional é letra morta ou está restrita a estudos dentro de gabinetes/secretarias.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Ser diferente é bom.Ser indiferente é que não é.

A reflexão acerca da consciência negra independe de uma data específica. A criação de um dia específico oportuniza a valorização da cultura afro-brasileira em diversos segmentos sociais, entretanto o preconceito é um tema a ser discutido diariamente até que possamos falar de sua existência como fato ocorrido no passado.
Os negros brasileiros vem lutando para terem suas capacidades reconhecidas, para terem as mesmas oportunidades e os mesmos direitos, conforme está escrito na Constituição Federal.Precisamos de políticas públicas que possibiitem aos negros a inclusão social, cultural, econômica e política.
A força do racismo está na forma como ele é ensinado e aprendido. Nelson Mandela já disse:"Ninguém nasce racista", a família, a sociedade, a escola é que produzem seres racistas, que ensinam as práticas racistas, cria-se a representação falsa e negativa do negro.
Junto com o dia da consciência negra deveria ser o dia do perdão, pois o povo negro brasileiro é descendente de negros trazidos acorrentados em navios negreiros, arrancados do continente Africano, para o Brasil, país que praticou esta atrocidade que foi a escravidão, uma covardia, uma vergonha, os negros foram e continuam sendo o povo mais humilhado de toda a história e até hoje sentem a dor dos chicotes (discriminação racial). A implementação da Lei 10639/03 que diz ser obrigatório o ensino da cultura dos negros brasileiros e a história da África, não se restringe apenas à comunidade negra, é fundamental para todos os cidadãos brasileiros que querem um futuro livre desta calamidade e uma sociedade onde os direitos, a igualdade, seja uma realidade para todos, independente de sua etnia, credo, orientação sexual, idade, se portador de necessidades especiais e classe social.

"Não vos alerto por represália. Nem cobro meus direitos por vingança.
Só quero banir de nossos peitos, esta goma hereditária e triste, que muito me magoa e tanto te envergonha." (Geni Guimarães)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O XADREZ DAS CORES

Ontem à noite (17/11/09), dentro da programação da Semana da Consciência Negra do município de Esteio/RS, onde o tema é "Identidade Étnica e Religiosa, Superando Preconceitos e a Discriminação", às 20horas foi passado o curta "O Xadrez das Cores", por tratar de um tema polêmico e, ao mesmo tempo, tão real, principalmente da maneira como enfocou o assunto, percebemos o quanto ainda o preconceito está enraizado na cultura do povo. Embora muitas pessoas não admitam o modo de pensar, elas são traídas pelas palavras e ações. Exemplo disso foi que o Auditório da Casa de Cultura Lufredina Araújo Gaya que estava reservado dia 17/11 apartir das 19h30min para o Cinema-Curtas foi ocupado com outra atividade cultural, sendo que haviamos convidado escolas da rede pública e que a revelia do que havia sido programado e combinado, foi transferido a atividade para uma sala menor no andar superior da Casa e ainda foi feito contato(por alguém daquela Casa) desmarcando a atividade com as escolas convidadas. Tivemos um público pequeno (11 pessoas), mas certamente o debate que foi feito ali, foi de grande valor.
É um filme que nos faz olhar para a nossa realidade, onde o preconceito, as diferenças, infelizmente ainda tem lugar no cotidiano das pessoas, o autor usou o xadrez com muita sabedoria para demostrar que mesmo com as diferenças das cores as peças do jogo tem as mesmas funções, que atraves deste curta possamos aprender a conviver e respeitar as diferenças.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

I Conferência Livre de Comunicação-Grupo Unir Raças-Esteio/RS

No dia 23/10/09, aconteceu a I Conferência Livre de Comunicação - Grupo Unir Raças-Esteio/RS.

O objetivo da conferência foi debater a imagem da população negra nos meios de comunicação, o racismo discursivo na mídia e a ausência de apoio para artistas e comunicadores negros e negras.

As propostas organizadas nesta conferência serão encaminhadas para a conferência estadual e nacional de Comunicação.

O tema da Conferência de Comunicação foi a Democratização da Comunicação.

Foi fundamental a participação de todos, pois esse não é um debate apenas para jornalistas, artistas ou intelectuais as mudanças são urgentes e determinantes para toda a sociedade.

É a comunidade negra dizendo que não está satisfeita com a maneira como é representada pela mídia.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Deputados aprovam o Estatuto da Igualdade Racial

Discutido no Congresso desde 2003, o Estatuto da Igualdade Racial foi aprovado ontem na Câmara dos Deputados.Para avançar no Congresso, o projeto precisou de um acordo entre oposição e governo. Os pontos mais polêmicos acabaram retirados do texto original, como a criação de cotas para negros nas universidades federais, um percentual que obriga atores e figurantes negros em programas de TV e a titulação de terras quilombolas.O deputado Daniel Feliciano (PDT-BA) acusou os colegas de aprovarem o estatuto desidratado, com poucos efeitos práticos para a população negra.– Esse relatório suprime a essência de muitas coisas que já haviam sido conquistadas em anos de luta – disse.O acordo manteve a criação de cota para candidatos negros nas eleições, mas reduziu esse percentual de 30% para 10%. Já as cotas na TV foram eliminadas, e os artigos que instituíam a reserva de vagas no ensino superior foram substituídos por um texto genérico, que não fixa prazos ou percentuais. O relatório manteve a promessa, a ser regulamentada, de incentivos fiscais para empresas com 20% de trabalhadores negros.O presidente da Comissão Especial, deputado Carlos Santana (PT-RJ) minimizou as críticas e classificou a aprovação de vitória histórica.– Ao aprovar o estatuto, estamos reconhecendo que há discriminação racial no Brasil. Nós não recuamos – afirmou.O ministro da Igualdade Racial, Edson Santos, avaliou a aprovação da proposta.– O estatuto foi possível diante da correlação de forças do Congresso. O maior avanço é que ele não vai gerar conflitos porque os partidos estão unidos em torno do mesmo texto – disse Santos.Com a aprovação do relatório da Comissão Especial, o projeto deve seguir diretamente para o Senado. A intenção é que o presidente Lula sancione o estatuto no dia da Consciência Negra, em 20 de novembro.Mesmo esfacelado, o texto foi aprovado em clima de festa, com batucada promovida por militantes com roupas e turbantes afro. Os deputados esqueceram o protocolo e votaram de pé. Depois, cantaram de mãos dadas o samba Sorriso Negro, gravado por Ivone Lara.Brasília
As mudanças
CANDIDATURAS
As principais regras que entrarão em vigor, caso o estatuto passe no Senado e seja sancionado pela Presidência
- Obriga que os partidos políticos destinem aos negros 10% de suas vagas para candidaturas nas eleições proporcional. A proposta original previa uma cota de 30%
SAÚDE
- Determina que o sistema público de saúde se especialize em doenças mais características da raça negra, como a anemia falciforme
EDUCAÇÃO
- Torna obrigatória a inclusão no currículo do Ensino Fundamental aulas sobre história geral da África e do negro no Brasil
- Determina que o Poder Público adote ações afirmativas em instituições públicas federais de ensino – sem prever cotas ou percentuais mínimos
TRABALHO
- Permite que o governo crie incentivos fiscais para empresas com mais de 20 funcionários e que decidirem contratar pelo menos 20% de negros
- Determina que os governos prevejam ações que promovam a igualdade de oportunidade no mercado de trabalho
Fonte: Zero Hora - 10/09/2009

terça-feira, 23 de junho de 2009

“Então é verdade, no Brasil é duro ser negro?”

“Então é verdade, no Brasil é duro ser negro?”A mais importante atriz de Moçambique sofre discriminação racial em São Paulo

ELIANE BRUM
Fazia tempo que eu não sentia tanta vergonha. Terminava a entrevista com a bela Lucrécia Paco, a maior atriz moçambicana, no início da tarde desta sexta-feira, 19/6, quando fiz aquela pergunta clássica, que sempre parece obrigatória quando entrevistamos algum negro no Brasil ou fora dele. “Você já sofreu discriminação por ser negra?”. Eu imaginava que sim. Afinal, Lucrécia nasceu antes da independência de Moçambique e viaja com suas peças teatrais pelo mundo inteiro. Eu só não imaginava a resposta: “Sim. Ontem”. Lucrécia falou com ênfase. E com dor. “Aqui?”, eu perguntei, num tom mais alto que o habitual. “Sim, no Shopping Paulista, quando estava na fila da casa de câmbio trocando meus últimos dólares”, contou. “Como assim?”, perguntei, sentindo meu rosto ficar vermelho. Ela estava na fila da casa de câmbio, quando a mulher da frente, branca, loira, se virou para ela: “Ai, minha bolsa”, apertando a bolsa contra o corpo. Lucrécia levou um susto. Ela estava longe, pensando na timbila, um instrumento tradicional moçambicano, semelhante a um xilofone, que a acompanha na peça que estreará nesta sexta-feira e ainda não havia chegado a São Paulo. Imaginou que havia encostado, sem querer, na bolsa da mulher. “Desculpa, eu nem percebi”, disse. A mulher tornou-se ainda mais agressiva. “Ah, agora diz que tocou sem querer?”, ironizou. “Pois eu vou chamar os seguranças, vou chamar a polícia de imigração.” Lucrécia conta que se sentiu muito humilhada, que parecia que a estavam despindo diante de todos. Mas reagiu. “Pois a senhora saiba que eu não sou imigrante. Nem quero ser. E saiba também que os brasileiros estão chegando aos milhares para trabalhar nas obras de Moçambique e nós os recebemos de braços abertos.” A mulher continuou resmungando. Um segurança apareceu na porta. Lucrécia trocou seus dólares e foi embora. Mal, muito mal. Seus colegas moçambicanos, que a esperavam do lado de fora, disseram que era para esquecer. Nenhum deles sabia que no Brasil o racismo é crime inafiançável. Como poderiam?
Saiba mais * *»*Sergia Galván - "O racismo hoje é mais sutil e mais forte" <http://revistaepoca.globo.com/EditoraGlobo2/Materia/exibir.ssp?materiaId=69960&secaoId=15228> * *»*Cotas para quê? <http://revistaepoca.globo.com/EditoraGlobo2/Materia/exibir.ssp?materiaId=67068&secaoId=15228> * *»*Agência proíbe de falar sobre cotas, diz top <http://revistaepoca.globo.com/EditoraGlobo2/Materia/exibir.ssp?materiaId=77868&secaoId=15228>Lucrécia não consegue esquecer. “Não pude dormir à noite, fiquei muito mal”, diz. “Comecei a ficar paranoica, a ver sinais de discriminação no restaurante, em todo o lugar que ia. E eu não quero isso pra mim.” Em seus 39 anos de vida dura, num país que foi colônia portuguesa até 1975 e, depois, devastado por 20 anos de guerra civil, Lucrécia nunca tinha passado por nada assim. “Eu nunca fui discriminada dessa maneira”, diz. “Dá uma dor na gente. ” Ela veio ao Brasil a convite do Itaú Cultural, que realiza até 26 de junho, em São Paulo, o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito. Lucrécia apresentará de hoje a domingo (19 a 22/6), sempre às 20h, a peça Mulher Asfalto. Nela, interpreta uma prostituta que, diante de seu corpo violado de todas as formas, só tem a palavra para se manter viva. Lucrécia e o autor do texto, Alain-Kamal Martial, estavam em Madagáscar, em 2005, quando assistiram, impotentes, uma prostituta ser brutalmente espancada por um policial nas ruas da capital, Antananarivo. A mulher caía no chão e se levantava. Caía de novo e mais uma vez se levantava. Caía e se levantava sem deixar de falar. Isso se repetiu até que nem mesmo eles puderam continuar assistindo. “Era a palavra que a fazia levantar”, diz Lucrécia. “Sua voz a manteve viva.” Foi assim que surgiu o texto, como uma forma de romper a impotência e levar aquela voz simbólica para os palcos do mundo.
Mais tarde, em 2007, Lucrécia montou o atual espetáculo quando uma quadrilha de traficantes de meninas foi desbaratada em Moçambique. Eles sequestravam crianças e as levavam à África do Sul. Uma menina morreu depois de ser violada de todas as maneiras com uma chave de fenda. Lucrécia sentiu-se novamente confrontada. E montou o Mulher Asfalto. Não poderia imaginar que também ela se sentiria violada e impotente, quase sem voz, diante da cliente de um shopping em um outro continente, na cidade mais rica e moderna do Brasil. Nesta manhã de sexta-feira, Lucrécia estava abatida, esquecendo palavras. Trocou o horário da entrevista, depois errou o local. Lucrécia não está bem. E vai precisar de toda a sua voz – e de todas as palavras – para encarnar sua personagem nesta noite de estréia. “Fiquei pensando”, me disse. “Será que então é verdade? Que no Brasil é difícil ser negro? Que a vida é muito dura para um preto no Brasil?” Eu fiquei muda. A vergonha arrancou a minha voz. Fonte: <http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI78162-15228,00-ENTAO+E+VERDADE+NO+BRASIL+E+DURO+SER+NEGRO.html>http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI78162-15228,00-ENTAO+E+VERDADE+NO+BRASIL+E+DURO+SER+NEGRO.html

terça-feira, 12 de maio de 2009

O 13 de maio de 2009 traz à tona o velho sonho de todos os oprimidos do mundo de todas as épocas: a liberdade das garras da opressão. E, junto com o sonho, as lutas travadas em busca da liberdade.
13 de maio dia dos pretos velhos - Os Pretos Velhos representam a força, a resignação, a sabedoria, o amor e a caridade. Com seus cachimbos, fala pousada, tranquilidade nos gestos, eles escutam e ajudam àqueles que necessitam, independente de sua cor, idade, sexo e religião.

A falsa história que nos contam até hoje sobre a Abolição da Escravatura no Brasil.

Era uma vez, uma princesa boazinha chamada Isabel, que no dia 13 de maio de 1888 resolveu, num ato de extrema bondade conceder a libertação dos escravos, assinando a Lei Áurea e todos os libertos viveram felizes para sempre, com trabalho, educação, saúde... Enfim uma vida digna.

A verdadeira história após 121 anos da Abolição da Escravatura.

Ao rever a história um misto de amargura e inconformidade nos toma conta ao constatar que, apesar destas situações se desenrolarem sob os nossos olhos, freqüentemente, a indiferença acaba sendo a única resposta. Tudo parece tão natural que somos incapazes de perceber os interesses em jogo e a necessidade de conhecer mais a realidade para poder mudá-la.
As principais causas da abolição da escravatura devem ser procuradas em seis aspectos fundamentais:
1. A luta e a resistência dos trabalhadores escravizados contra qualquer tipo de opressão;
2. Nos interesses econômicos das principais potências capitalistas da época, com ênfase especial para a Inglaterra;
3. Nas novas possibilidades de investimento, perante as quais as quantias empatadas na compra e manutenção dos escravos começam a ganhar as cores do desperdício;
4. Na política migratória dos países europeus interessados em se livrar dos grandes excedentes de desempregados e desocupados cujo descontentamento eleva as tensões sociais;

5. Na campanha abolicionista que passa a contar com o apoio de setores da elite, da intelectualidade, das classes médias, dos trabalhadores estrangeiros e de parte das forças antes destinadas à repressão das rebeliões escravas;

6. No vertiginoso aumento das fugas dos escravos que dá o tiro de misericórdia no combalido sistema escravista.

Extinta na maior parte das províncias do Brasil, em 1888, a escravidão atinge pouco mais de 600.000 pessoas, cerca de 4% da população do país. O seu atestado de óbito é assinado pela Princesa Isabel, em 13 de maio do mesmo ano, no Paço Imperial do Rio de Janeiro. A lei N. º 3.353 que declara o fim da escravidão e revoga todas as disposições em contrário é assinada com uma pena de ouro doada por subscrição pública e passa a ser lembrada como Lei Áurea. Graças a este gesto, a Princesa não ratifica apenas um fato praticamente já consumado. Ao colocar a extinção da escravatura sob a égide do abolicionismo legalista e parlamentar salva a dominação de classe dos setores progressistas da elite rural e veicula entre os dominados a idéia de que sua liberdade não depende das lutas, mas sim das concessões que, das esferas do poder, são oferecidas às camadas que estão na base da pirâmide social. Para os parlamentares e para os senhores, a questão da escravidão está oficialmente encerrada. Os ex-escravos são abandonados à própria sorte e, daí em diante, em condições extremamente difíceis, cabe a eles transformar a emancipação legal em realidade material. A lei que garante o status jurídico de homens e mulheres livres não fornece meio algum para tornar efetiva esta liberdade. A igualdade jurídica, por si só, não melhora suas condições de vida e nem elimina os preconceitos alimentados durante mais de três séculos de escravidão.
Após a promulgação da Lei Áurea, a grande maioria das pessoas consideradas desocupadas (algo em torno de 3 milhões), sobrevive graças a uma agricultura de subsistência, tem relações extremamente precárias com o mercado e aceita de forma eventual, como diarista, a execução de tarefas no interior das fazendas. Por ter como ganhar o pão de cada dia, não se submete à disciplina de trabalho exaustiva e embrutecedora que os latifundiários impõem a quem vai substituir a labuta dos escravos. Quanto aos negros livres, os fazendeiros sabem que não podem extrair deles o mesmo rendimento dos tempos da escravatura e temem que, diante de qualquer cobrança excessiva, estes podem vir a abandonar as fazendas ou fazer exigências exorbitantes para continuar nelas a fim de garantir as colheitas. Ao contrário do que é seguidamente alardeado pela propaganda da época, a recusa dos proprietários em lançar mão da força de trabalho local (na qual se incluem negros livres, posseiros, caboclos e caipiras) como fator determinante da produção assalariada, não se deve à inferioridade racial ou a uma suposta propensão inata à vadiagem, mas sim às dificuldades objetivas de garantir a submissão a uma disciplina que assegure a sua exploração.
Os dados mostram que não há espaço para eles (ex-escravos) na indústria e nos serviços urbanos. Em 1893, por exemplo, os trabalhadores estrangeiros representam pouco mais da metade dos moradores da cidade de São Paulo. Apesar disso, ocupam 84% das vagas oferecidas pela indústria, 81% das disponibilizadas pelo setor de transportes e 72% das que existem no comércio. Oito anos depois, os imigrantes constituem 92% do proletariado industrial de São Paulo. Nas demais províncias do sul e sudeste, as coisas não são muito diferentes.1
1 Dados publicados em Jacob Gorender (28), pg.199.
A procura de trabalhadores nacionais por parte de empresários urbanos e fazendeiros paulistas vai começar por volta de 1920. A partir deste momento, os interesses patronais começam a incentivar a migração interna. Antes desprezada por pertencer a uma raça considerada incapaz de concorrer com os brancos europeus, esta força de trabalho aumenta sua presença nos centros mais dinâmicos da economia e passa ser vista como uma necessidade imperiosa para manter elevados os lucros capitalistas. Neste processo que, em épocas e formas diferentes, busca criar e alimentar contingentes consideráveis de desempregados, a discriminação racial coloca os negros numa posição de inferioridade no interior desta grande reserva de força de trabalho. Ao classificar as pessoas segundo a cor da pele e ao justificar um tratamento discriminatório com base numa suposta inferioridade a ela vinculada, o capitalismo consegue tornar disponível para o trabalho um número elevado de pessoas que podem ser contratadas em troca de salários ainda mais baixos ““.
“Bom isso é lá no passado, porque agora...” - “Continua do mesmo jeitinho!”, “A verdade nua e crua é que os negros ainda enfrentam grandes barreiras para ter acesso ao mercado de trabalho e, quando conseguem, os salários são, em média, bem menores daqueles pagos aos brancos. De acordo com os dados divulgados pelo Fórum de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher e pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, em 2003, o ordenado médio de um homem branco é de R$ 931,00, ao passo que o de um negro é de R$ 428,30. Entre as mulheres as coisas não são diferentes. Enquanto as brancas ganham, em média, R$ 554,60, as negras não passam de R$ 279,70.1
Trocado em miúdos, o ordenado de um branco equivale a mais de dois salários pagos a um negro enquanto uma mulher negra precisa trabalhar, em média, três meses e dez dias para ter a mesma renda do primeiro e quase dois meses para igualar a de uma mulher branca. Para bom entendedor... Meia palavra basta “. Pricesa boazinha”.
1 Dados divulgados em Kelly Oliveira, Mulheres brancas recebem o dobro do salário pago às negras, em Gazeta Mercantil, 18/11/2005.
“Acontece que o fim da escravidão não implica no fim da exploração do trabalho humano e, muito menos, na realização da liberdade, já que o lucro, e não a vida dos seres da sua espécie, continuam ocupando o centro da organização da sociedade. O que se precisa entender é que o próprio movimento abolicionista traz em seu bojo as condições que permitem à elite a reorganização de suas forças nos centros de poder e de governo da sociedade”. Não há momento na história da escravidão brasileira em que suas vítimas não viabilizem alguma forma de luta ou de resistência. Por isso, basta afrouxar um pouco as medidas repressivas para que os cativos possam desferir o golpe que desintegra o já combalido sistema escravista. Em 16 de outubro de 1886, as pressões abolicionistas levam a Câmara a aprovar a lei que proíbe o uso do açoite para punir os cativos. Após promulgar esta norma que bane um dos mais temidos instrumentos de tortura, os escravos começam a fugir em massa das fazendas.



O Grupo Unir Raças quer aqui lembrar que, o braço negro construiu a riqueza deste país em nossos primeiros séculos de história. Onde isto é dito, onde se aprende a importância da cultura, da contribuição dos negros? Não chegamos ao Brasil como imigrantes, de livre vontade. Séculos de escravidão, açoites e humilhações marcam esta história. Aprendemos na escola a história da Europa. E a África?
Por isso é necessário que a Lei Federal 10.639 de 09 de janeiro de 2003, que tornou obrigatório o ensino da história da África e da cultura afro-brasileira, nas escolas de educação básica e fundamental, pública e privada, seja implementada em Esteio e demais cidades do Brasil, pois a inclusão do negro nos livros escolares é o início da desmistificação da “Democracia Racial”, é tornar público a luta dos negros, e a importância de sua participação na construção da sociedade brasileira, bem como sua valorização como negro-brasileiros. Após seis anos da sanção da lei, é necessário que façamos uma reflexão sobre a questão étnico-racial e a não-aplicação da lei no planejamento escolar, pois são muitas as deficiências percebidas, que impedem sua implementação, desde a desatualização de livros didáticos, falta de formação, capacitação e conhecimento da história e da cultura africana pelos educadores, até a omissão do estado brasileiro em não fazer cumprir verdadeiramente a lei.

Sugestão de leitura:
O livro - Em busca da liberdade - traços das lutas escravas no Brasil - de Emilio Gennari traz à tona o velho sonho de todos os oprimidos do mundo de todas as épocas: a liberdade das garras da opressão. E, junto com o sonho, as lutas travadas em busca da liberdade. Um texto leve e bastante informativo, de acordo com a editora, leva o leitor a um passado histórico que “é muito mais do que um momento distante”. A busca da liberdade exige lutas e a compreensão disso “é um passo indispensável para se entender profundamente a realidade atual”. O livro ressalta a necessidade do conhecimento e da compreensão de nosso passado para entendermos o nosso presente. Só assim teremos condições para continuar a nossa busca pela liberdade.

Sugestão de vídeos:
Assista aos vídeos disponibilizados na página: http://www.acordacultura.org.br/, venha conhecer os Heróis de Todo Mundo. Este projeto tem como propósito construir uma nova prática para pensar e agir as relações educacionais plurirracial e multicultural, dando visibilidade à cultura afro-descendente como protagonista na construção histórica do nosso país.

Filme Cafundó é inspirado em um personagem real saído das senzalas do século XIX. Um tropeiro, ex-escravo, deslumbrado com o mundo em transformação e desesperado para viver nele. Este choque leva-o ao fundo do poço. Derrotado, ele se abandona nos braços da inspiração, alucina-se, ilumina-se, é capaz de ver Deus. Uma visão em que se misturam as magias de suas raízes negras com a glória da civilização judaico-cristã. Sua missão é ajudar o próximo. Ele se crê capaz de curar, e acaba curando. O triunfo da loucura da fé. Sua morte, nos anos 40, transforma-o numa das lendas que formou a alma brasileira e, até hoje, nas lojas de produtos religiosos, encontramos sua imagem, O Preto Velho João de Camargo.

Grupo Unir Raças contato: fones: 51 34597163/ 51 91553572